Tensão entre Israel e Rússia pode ampliar conflito na Síria

Israel advertiu que não permitirá ação do Irã na Síria

Israel advertiu que não permitirá ação do Irã na Síria

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Socialismo, sionismo e antissemitismo formam uma tríade que desenhou o mapa e as relações políticas do Oriente Médio desde o início do século 20 até os dias atuais, quando a Rússia acusou Israel de atacar com mísseis a base aérea T-4, em Homs, na Síria, no último domingo (8), matando pelo menos 14 pessoas.

E agora, ao que parece, há a tentativa de trazer essas feridas para a Guerra da Síria, colocando frente a frente Rússia e Israel. O diretor do OSDH (Observatório Sírio de Direitos Humanos), Rami Abdel Rahman, afirmou que combatentes da milícia libanesa Hezbollah, apoiados por Irã e possivelmente pela Rússia, têm presença na base, o que para Israel significa uma ameaça.

Apesar de o país já ter advertido que não permitiria que o Irã, seu principal inimigo, estabeleça bases militares na Síria, Israel não se manifestou a respeito da ação. Mas a acusação da Rússia colocou fervura em uma situação já tensa na região.

Desde o rompimento de relações entre a União Soviética e Israel, após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, este é um dos momentos de maior tensão entre os dois países (agora a Rússia ocupa o lugar da antiga União Soviética no cenário).

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Os Estados Unidos, por sua vez, entram como terceira parte, a partir do momento em que pensam em novamente retaliar o governo de Bashar al-Assad, acusado pelos radicais do Jaish al-Islam de ter lançado outro brutal ataque químico, à cidade de Douma, no último sábado (7), matando dezenas de pessoas. Isso dias após o presidente Donald Trump ter revelado sua intenção de tirar as tropas americanas da Síria.

Essa relação Israel-Rússia-Estados Unidos nada mais é do que um eixo que abarca boa parte da história ocidental e oriental, desde a Idade Média. Israel é como um elo entre um período de sofrimento e sonhos no leste europeu, até a ascensão dos EUA como potência.

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Neste período, os judeus moravam em shtetls (vilarejos) da comunidade e, sempre ameaçados pelo antissemitismo, viram esses locais comuns entre os séculos 17 e 19 se tornarem guetos. E foram discriminados inclusive no comunismo, quando muitos dos seus componentes foram perseguidos, inclusive por serem judeus.

Os ideais socialistas destes perseguidos, porém, foram bem aceitos pelo regime comunista no momento em que chegaram a Israel. Foi com este espírito que o país se formou, inicialmente baseado nas cooperativas para colonizar o país e proteger as fronteiras, chamadas kibutzim.

A União Soviética, comandada por Stalin, viu com bons olhos ter a seu favor esse tipo de propaganda no Oriente Médio, onde o país exercia ainda pouca influência.

E iniciou a história de Israel como uma aliada, tendo sido a primeira a reconhecer o Estado Judaico, em 1948. Foi um fornecedor de armas, por meio de corredores como a Tchecoslováquia, para o exército israelense na guerra pela Independência.

O panorama só se modificou quando entraram em cena os Estados Unidos, a partir dos anos 60, também impulsionados pelo forte apoio da comunidade judaica americana a Israel.

Neste momento, Israel se viu em uma encruzilhada. Mesmo com forte influência do socialismo em suas instituições, precisava do apoio capitalista para se fortalecer como nação.

Foi quando a então ministra das Relações Exteriores, Golda Meir, após ser embaixadora em Moscou, incentivou a imigração de judeus, da Rússia para Israel, contrariando as determinações do ditador Josef Stalin, cujo objetivo naqueles anos 50 era mostrar ao mundo a imagem de um país formado por vários grupos, todos engajados no desenvolvimento soviético.

Irritada com as desavenças, a União Soviética passou a apoiar os países árabes, para começar a contrabalançar a influência, considerando que os americanos lhes roubaram o promissor aliado, inclusive por muitos judeus, que foram para Israel, terem nascido na Rússia ou na região.

O que impeliu Israel a preferir o apoio americano foi exatamente a busca de superar um trauma. As desconfianças em relação ao antissemitismo pesaram, levando-se em conta que, a nova potência, mais aberta aos judeus, acenava com uma vida muito mais próspera para a comunidade, além do maciço apoio ao Estado de Israel.

Por outro lado, o fato de Israel se afastar da União Soviética lhe foi prejudicial, pois possibilitou aos países hostis à sua existência ganharem um poderoso aliado.

É impossível saber o que teria acontecido se Israel tivesse mantido o apoio soviético. Poderia manter também o americano? Se fosse assim, serviria como um aglutinador capaz de impedir inclusive a continuidade da Guerra Fria.

E, sem o apoio soviético, talvez Síria, Iraque, Irã, partes do Líbano, do Egito e da Jordânia não tivessem tanto poder de mobilização contra Israel.

Mas, como a história não tem "se", a verdade é que a relação entre judeus e russos (inclusive de judeus-russos) é de amor e ódio. Amor pelo fato deste país ser a origem de muitos deles, que, no entanto, tiveram o ódio alimentado por ondas antissemitas e pela falta de perspectivas naqueles tempos.

E enquanto Vladimir Putin e Trump discordam publicamente, com a Síria como um cenário para essas desavenças, a situação permanece sem solução. Com Israel, na obsessão pela segurança de suas fronteiras, correndo o risco de ser atraído para o sangrento conflito, por forças apoiadas pelo Irã.

Toda essa confusão, porém, tem uma causa. Ela vem do fato de que, pensando estarem eles olhando para o presente, os envolvidos não percebem que estão, na verdade, olhando apenas para o passado. E diminuindo cada vez mais as esperanças para um futuro melhor, pelo menos nos próximos anos.