Governo da Nicarágua executou manifestantes, afirma ONG

Polícia teria executado manifestantes na Nicarágua

Polícia teria executado manifestantes na Nicarágua

Reuters / Oswaldo Rivas / 29.5.2018

O governo da Nicarágua usou força excessiva e realizou execuções extrajudiciais durante a repressão aos protestos que, há 40 dias, tomam as ruas do país, afirma relatório apresentado nesta terça-feria (29) pela Anistia Internacional. Ainda segundo o relatório, pelo menos 81 pessoas morreram durante os confrontos com forças leais ao governo de Daniel Ortega, que teria inclusive lançado mão do uso de milícias para reprimir as manifestações.

No relatório, entitulado "Disparar para matar: estratégias de repressão de protestos na Nicarágua", a Anistia Internacional registra que a polícia nicaraguense faz uso de armas letais contra multidões e registra o grande número de pessoas feridas com armas de fogo.

Além disso, diz que há um grande número de pessoas mortas com tiros na cabeça, pescoço e peito. A análise da trajetória das balas e as tentativas do governo de impedir investigações sobre as mortes levam a ONG a concluir que a polícia e as milícias realizaram múltiplas execuções extrajudiciais".

Enquanto a ONG apresentava o relatório, novos protestos ocorriam nas ruas de Manágua e eram fortemente reprimidos pela polícia.

O jornal nicaraguense La Prensa registrou que uma das porta-vozes da Polícia Nacional, Vilma Rosa Gonzáles, culpou os manifestantes por iniciarem os confrontos desta terça-feira. "Os policiais foram agredidos por grupos de encapuzados com armas de fogo", disse a porta-voz, afirmando que haveria quatro policiais feridos.

Manifestações começaram em abril

As manifestações começaram em 18 de abril, como uma grande paralisação contra a reforma da previdência decretada por Ortega. A repressão violenta aos primeiros atos fez com que a pauta do movimento passasse a ser a renúncia do presidente.

Os protestos pressionaram Ortega a voltar atrás na reforma do sistema previdenciário, mas isto não foi suficiente. Movimentos sociais, grupos religiosos e até mesmo empresários pediram a instalação de uma mesa de diálogo de paz. 

O número de mortos e as centenas de feridos, porém, colocam o governo em cheque. A OEA (Organização dos Estados Americanos) chegou a pedir a antecipação das eleições.

Segundo a Anistia Internacional, até 28 de maio, pelo menos 81 pessoas no conflito, outras 868 foram feridas e há 438 presos pelo que a ONG chama de "ação coordenada do governo" para reprimir os protestos.

'Ataque cruel'

Além da violência policial e a denúncia das execuções, a Anistia Internacional também afirma em seu relatório que o governo de Ortega trabalha para censurar meios de comunicação. Também afirma que autoridades públicas "negavam atenção médica às vítimas, manipulavam provas e se negavam a realizar autópsias ou outros exames forenses".

"As autoridades nicaraguenses se voltaram contra sua própria gente em um ataque cruel, permanente e com frequência letal contra os direitos à vida, à liberdade de expressão e de reunião pacífica. Ainda, o governo do presidente Ortega tratou de descaradamente encobrir estas atrocidades, violando o direito das vítimas à verdade, justiça e reparação", disse a diretora para as Américas da ONG, Erika Guevara Rosas.