Instituição de SP evita que idoso com transtorno se isole em casa

Os idosos realizam diversas atividades no centro-dia, como a dança sênior

Os idosos realizam diversas atividades no centro-dia, como a dança sênior

Dinalva Fernandes/R7

Doenças relacionadas à idade, como Alzheimer e Parkinson, têm se tornado mais comuns porque as pessoas estão envelhecendo mais, e muitos idosos acabam passando o resto de suas vidas em casas de repousos, popularmente conhecidas como asilos, ou acamados dentro de casa. A falta de convívio com a família e a rotina desgastante podem agravar o quadro de saúde do idoso, é o que afirma a gerontóloga e arteterapeuta Cristiane Pomeranz.

— O esquecimento social é pior que o esquecimento da doença. Quem pode pagar por uma clínica ou por ajuda para cuidar daquele idoso com Alzheimer é uma coisa. Mas há vários idosos cujos filhos não podem deixar de trabalhar para cuidar dele. Então, aquela pessoa fica isolada dentro de casa, sozinha e desnutrida.

Segundo a especialista, uma forma de evitar que o idoso seja internado em uma clínica ou fique isolado em casa é matriculá-lo em instituições que ofereçam cuidados especializados durante o dia. Desta forma, o idoso passaria horas fazendo atividades estimuladoras, sem perder o convívio com a família, que é muito importante para a saúde.

— O centro-dia é uma opção interessante porque tem atividades estimuladoras e não tira aquele idoso do convívio familiar.

Quem não tem condições de pagar pelo serviço em clínicas particulares, pode procurar algum centro-dia gratuito, seja estadual ou municipal. Na cidade de São Paulo, por exemplo, há 16 centros-dia. A reportagem do R7 visitou um deles na sexta-feira (22). Trata-se do Centro-Dia para Idosos Lar Santo Alberto, em Lauzane Paulista, zona norte da cidade.

Os centros-dias municipais operam desde 2015 após uma parceria da prefeitura de São Paulo com ONGs (Organizações Não-Governamentais) que administram o espaço. O de Lauzane Paulista é de responsabilidade da ONG ASA (Associação Santo Agostinho), que já mantinha o espaço quando o mesmo funcionava como ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos), uma espécie de asilo público.

Nympha entrou em depressão após a perda do marido

Nympha entrou em depressão após a perda do marido

Dinalva Fernandes/R7

De acordo com a gerente do centro-dia, Sandra Leme, o serviço oferecido é multidisciplinar com atendimento de psicóloga, assistente social, terapeuta ocupacional, nutricionista e enfermeira, das 7h às 19h de segunda a sexta-feira. O local só atende idosos em situação de vulnerabilidade e que são semi-independentes.

— São idosos que não podem ficar sozinhos, que não conseguem fazer a própria comida nem tomar os remédios corretamente, mas mantêm certa autonomia. [O trabalho do centro] é preventivo para que ele não precise ficar acamado e que tenha mais qualidade de vida. O isolamento em casa deteriora a saúde daquele idoso, que fica debilitado mais rapidamente.

Para conseguir uma vaga no centro-dia, o idoso precisa ser encaminhado pelo CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) da região em mora. O interessado precisa preencher alguns quesitos, como avaliação socioeconômica, e não ter comprometimento cognitivo grave, explica Sandra.

— O idoso não pode ter comprometimento cognitivo severo, nem problemas graves de saúde. Antes de ir para o centro, ele passa por avaliação de saúde em uma UBS (Unidade Básica de Saúde.) Quando o idoso fica muito debilitado, ele volta para a UBS, que pode encaminhá-lo para outro serviço. Não há prazo para eles ficarem no local.

Casos de Alzheimer devem dobrar até 2030, com 90 mi de doentes

O interessado precisa ter a partir de 60 anos. No centro-dia Santana, a média de idade é de 80 anos, sendo que o mais velho tem 97 anos. Ainda segundo a gerente, a maioria deles ganha um salário mínimo de aposentadoria (R$ 937,00). Em clínicas particulares, o mesmo serviço seria oferecido a partir de R$ 3 mil.

O centro-dia tem capacidade para atender 30 pessoas e está com todas as vagas preenchidas por 24 mulheres e seis homens. A maioria dos frequentadores possuem graus leves de doenças neurológicas, principalmente Alzheimer, Parkinson e depressão.

‘Eu só ficava no meu canto’

Para chegar ao local, os idosos são levados por familiares ou transportados por vans do centro, que levam e buscam. O local não oferece camas para descanso. Sandra afirma que o objetivo é justamente estimular que o idoso se mantenha ativo e não perca a autonomia. Por isso, todas as atividades são voltadas para estimular o corpo e a mente.

— São disponibilizadas diversas atividades, como ioga, artesanato, informática, jogos que trabalham a parte cognitiva, biblioteca – os idosos podem pegar livros e filmes para assistir em casa —, arte, culinária, música, coral, dança sênior, além de jogos de baralho e dominó. A ideia é evitar chegar na situação de o idoso ter que ir a uma ILPI.

Sandra explica que os idosos têm quatro refeições: café da manhã, lanche, almoço e café da tarde, e só comem quando têm vontade.

— O almoço é das 12h às 14h. Então o idoso pode comer na hora que tiver fome porque sempre respeitamos a vontade dele. A nutricionista prepara cardápios saudáveis para todos, mas, dependendo do caso, a dieta é individualizada, como no caso de diabéticos e hipertensos.

Maria gosta de bordar durante a permanência no centro-dia

Maria gosta de bordar durante a permanência no centro-dia

Dinalva Fernandes/R7

Os idosos também participam de atividades intergeracionais. Do lado do imóvel, há um CCA (Centro para Crianças e Adolescentes) e uma creche. Em alguns dias da semana, são realizadas atividades com as crianças, os adolescentes e os idosos, como contagem de história, teatro e piquenique, afirma a gerente.

— Estar em contato com outras pessoas também ajuda na sociabilização, porque a pessoa precisa se arrumar para sair, e ganha motivação.

Os exercícios físicos são as atividades que mais agradam Stella Silva Julio, de 87 anos. Ela revela que não conseguia andar nem caminhar sozinha devido aos problemas nos joelhos.

— A ginástica me ajuda com o meu problema nos joelhos, que são operados. Se fosse procurar fora, seria bem difícil porque é complicado para eu fazer fisioterapia porque não consigo andar sozinha.

Stella morou por 30 anos na cidade de Arthur Nogueira, região de Campinas, no interior de São Paulo. Ela morava com dois filhos, até que, em um período de um ano, os dois morreram. Com a perda do terceiro filho, a aposentada entrou em depressão. Ao todo, a aposentada teve nove filhos, 28 netos, quase 30 bisnetos e sete tataranetos.

— Eu cuidava deles, cozinhava e tudo. Depois que eles morreram, eu não queria saber de comer, não queria fazer nada. Vim para São Paulo morar com uma filha, mas a casa dela tinha uma escada muito alta. Aí eu fui morar sozinha em uma casa sem escadas, mas passei em duas psicólogas para provar que tinha condições de ficar sozinha. Mas as filhas me visitam todos os dias. No fim de semana, limpo a minha casa, faço a minha comida e lavo a minha roupa.

Stella frequenta o centro-dia há mais de um ano

Stella frequenta o centro-dia há mais de um ano

Dinalva Fernandes/R7

Os idosos são orientados a realizar as atividades propostas, mas cada um faz a que quiser. Maria Silva, de 84 anos, por exemplo, gosta de bordar. Ela frequenta o espaço há um ano e conta que aprendeu a bordar ainda “menina” com as tias.

— É o que eu mais gosto de fazer aqui. Eu bordo de tudo, principalmente, panos de prato e dou de presente para a minha família no final do ano.

A dona de casa Nympha Santo da Luz, de 80 anos, também frequenta o local há um ano. Ela afirma gostar de todas as atividades, mesmo tendo dificuldade de realizar os exercícios físicos por conta da fraqueza nos braços.

— Gosto de tudo e me esforço para fazer. Não tem isso de ser velha para aprender. Mas gosto mais das artes, de pintar pano de prato, bordado, crochê. Só não faço mais porque meus braços são ruins. Eu caí e fiz duas cirurgias nos ombros, então não tem força para levantar os braços. Mas em casa ainda faço a minha comida e cuido das minhas coisas. Não gosto de ficar parada.

Antes de frequentar o centro, Nympha sofria de depressão profunda após a morte do marido, com quem ficou casada por 60 anos.

— Eu fiquei um ano e pouco só vigiando o meu marido porque ele não podia se levantar. Como ele estava muito fraco, ele podia cair e se machucar. Até hoje eu olho o canto dele e vejo ele lá. Mas agora ele está com Deus e está bem. Faz parte da vida, né?

Com a doença, ela se isolou em casa. Até que um vizinho sugeriu que ela procurasse o centro.

— Eu só ficava no meu canto. Aqui, eu falo com todo mundo e fiz amizades. Logo que eu cheguei eu gostei. Antes de eu vir para cá, eu iria para um asilo.

Outros centros

Para quem é de fora da capital, é possível encontrar atendimentos nos mesmos moldes do dentro-dia municipal. O governo estadual conta com 55 centros com capacidade para 50 idosos cada. Os pré-requisitos para ingressar nestas unidades são os mesmos da prefeitura, informou a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo.

Para frequentar o espaço, o idoso precisa atender a alguns pré-requisitos

Para frequentar o espaço, o idoso precisa atender a alguns pré-requisitos

Dinalva Fernandes/R7
‘Eu só ficava no meu canto’Outros centros